UMA CONFIDÊNCIA FINAL DE LACAN

JOSÉ MARCUS DE CASTRO MATTOS (*)

Espanta-me o pouco caso – ou má-fé – com que Lacan é traduzido para o brasileiro (para a língua portuguesa falada e escrita no Brasil).

Ora, passando os olhos pelo Youtube deparei-me com a fala original de Lacan e sua tradução em legendas que no geral dizem o contrário do que o psicanalista francês se propusera enunciar, lançando os ouvintes/leitores em uma noite na qual todos os pardos são gatos...

Assim, munido de meu farolete, entreguei-me novamente à tarefa de 'clarear os espíritos', não sem antes advertir-me de que eu fora derrotado nas vezes em que me apresentara como um psicanalista que também lera Kant e Wittgenstein (não há nada de arrogante nisso, posto que se trata da confissão de um fracasso).

E para piorar as coisas pro meu lado, acrescentei um comentário à minha tradução, testemunhando dessa maneira o quão sou pouco experiente em auto-advertências sobre a impossibilidade de elucidar os espíritos...

Mas deixemos pra lá minhas derrotas e passemos à confidência lacaniana.  

Há dois anos da conclusão de seu ensino Lacan diz o seguinte:

→ La métaphore du Noeud Borroméen à l'état le plus simple est impropre. C'est un abus de métaphore, parce qu'en réalité il n'y a pas de chose qui supporte l'Imaginaire, le Symbolique et le Réel.

Qu'il n'y ait pas de rapport sexuel, c'est ce que est l'essentiel de ce que j'énonce.

Qu'il n'y ait pas de rapport sexuel parce qu'il y a un Imaginaire, un Symbolique et un Réel, c'est ce que je n'ai pas osé dire.

Je l'ai quand même dit.

Il est bien évident que j'ai eu tort, mais je m'y suis laissé glisser. Je m'y suis laisser glisser tout simplement.

C'est embêtant. C'est même plus qu'ennuyeux. C'est d'autant plus ennuyeux que c'est injustifié.

C'est ce qui m'apparäit aujourd'hui. C'est du même coup ce que je vous avoue.

Bien! ←

↔ Citação colhida em: LACAN, J. Le séminaire, livre 26: la topologie et le temps (1978 – 1979). Paris, 09 de janeiro de 1979. Inédito.

↔ Link para o vídeo:

https://youtu.be/amJyIPGltSA

TRADUÇÃO DE J. M. de C. MATTOS

→ A metáfora do Nó Borromeano em seu estado mais simples é imprópria. É um abuso metafórico porque na realidade não há nada que suporte o Imaginário, o Simbólico e o Real.

Que não haja relação\proporção/complementaridade sexual [rapport sexuel], isto que é essencial do que enuncio.

Que não haja relação\proporção/complementaridade sexual [rapport sexuel] porque há um Imaginário, um Simbólico e um Real, é isso o que não ousei dizer.

Eu o tenho dito mesmo [tenho dito que não ousei dizer].

É bem evidente que eu estava errado [por não ousar dizer], mas me deixei levar; me deixei levar, muito simplesmente.

É aborrecido. É mesmo mais do que aborrecido. É tão mais aborrecido que é injustificado.

É isso que me parece hoje. Concomitante a isso, eis o que lhes confidencio.

Bem! ←

↔ Citação colhida em: LACAN, J. O seminário, livro 26: a topologia e o tempo (1978 – 1979). Paris, 09 de janeiro de 1979. Inédito.

COMENTÁRIO DE J. M. de C. MATTOS 

Para Lacan o Nó Borromeano não é uma metáfora, ou seja, ele não substitui um significante por outro significante.

Neste sentido, o Nó Borromeano não é uma 'figura de linguagem' (no caso, metáfora) que estaria inserida em procedimentos linguísticos que visariam demonstrá-lo.

Além disso, a realidade proveniente do espaço tridimensional (realidade discursiva, em última instância) não dá suporte nem inteligível nem manejável aos três registros constitutivos do Nó Borromeano, quais sejam, Imaginário (I), Simbólico (S) e Real (R).

Ora, o essencial do ensinamento de Lacan é o fato de estrutura segundo o qual 'não há relação\proporção/complementaridade sexual (rapport sexuel)' entre os seres-falantes (parlêtres).

Tal fato de estrutura diz respeito à impossibilidade de 'se escrever' a relação\proporção/complementaridade sexual (rapport sexuel), ou seja, fazê-la representar-se na e pela Linguagem/Discurso.

Nos termos de Lacan:

→ E o que faz com que a relação sexual [rapport sexuel] não possa se escrever é justamente esse buraco que toda Linguagem enquanto tal tampona: o acesso do ser falante a algo que se apresenta como, em certo ponto, tocando no real. Nesse ponto, aí se justifica que o real eu o defina como impossível, porque aí justamente ela não chega jamais – essa é a natureza da Linguagem – a escrever a relação sexual [rapport sexuel]. (LACAN, J. O seminário, livro 21: les non-dupes errent [1973 – 1974]. Sessão de 20 de Novembro de 1973. Inédito.) ←

Isto posto, na sessão de 09 de Janeiro de 1979 (citada acima) Lacan dirá que a inexistência da relação sexual (rapport sexuel) é devida ao próprio Nó Borromeano enquanto estruturação topológica cujos componentes elementares são os registros do Imaginário (I), do Simbólico (S) e do Real (R).

Sendo assim, a Linguagem está subsumida e/ou englobada pelo Nó Borromeano e é exata e precisamente por isso que não se pode escrever a relação\proporção/complementaridade sexual (rapport sexuel).

Formalmente:

(Nó Borromeano → Não há relação sexual // Linguagem.)

Pois bem, em seguida Lacan lamenta-se por 'não ter ousado dizer' até ali a subsunção e/ou englobamento da Linguagem pelo Nó Borromeano e que esta falta de ousadia teria sido o seu erro, na medida em que ele deixou-se 'muito simplesmente levar' (deixou-se levar pela falta de ousadia em propor a subsunção estrutural da Linguagem ao Nó Borromeano).

Finalmente, neste deixar-se levar – ou, com mais rigor, nesta vacilação e/ou tropeço – residiria a causa do aborrecimento 'injustificado' de Lacan, pois ao concluir seu ensino ele teria plenas condições para propor e assumir que a impossibilidade de se escrever a relação sexual (rapport sexuel) na Linguagem – tese essencial da leitura que ele realizara de Freud – devia ser creditada à 'ex-sistência' (existência exterior) do Nó Borromeano (RSI).

Todavia, Lacan não dera esse passo, confidenciando-o aos seus ouvintes.

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(*) JOSÉ MARCUS DE CASTRO MATTOS (*1965). Poeta. Psicanalista.

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JACQUES LACAN: LEITOR POLÍTICO DE FREUD

JOSÉ MARCUS DE CASTRO MATTOS (*)

O psicanalista francês JACQUES LACAN nasceu em 13 de Abril de 1901.

Portanto, comemoramos hoje 116 anos de nascimento daquele que é o grande restaurador do dispositivo clínico-político criado por SIGMUND FREUD (1856 – 1939) sob o nome de Psicanálise.

Lacan nomeou esta restauração de 'Retorno a Freud', lendo e transmitindo com rigor lógico inigualável o legado freudiano de sorte a mantê-lo a salvo dos desvios, das acomodações, das rendições e das subserviências de toda espécie.

Ao fazê-lo, Lacan pôs em relevo determinados elementos estruturais a partir dos quais tornou-se possível delimitar e articular com clareza os agenciamentos presentes no relacionamento sempre problemático entre o Sujeito (notação lacaniana $: Sujeito-do-Inconsciente) e o Outro (notação lacaniana Ⱥ: 'Autre-barrée', Outro-inconsistente pela incidência do Significante).

De fato, Freud e Lacan nos ensinaram que a ética própria à Psicanálise é constituída por dois vetores complementares, quais sejam:

I) 'Bem dizer o impossível de dizer bem'.

II) 'Ler a Civilização pela Psicanálise'.

No primeiro caso, trata-se do trabalho psicanalítico segundo o qual deve-se 'bem dizer' a incidência do registro do Real no Simbólico (Outro\Linguagem/Discurso), incidência esta que confronta o Sujeito ($) com o 'impossível de dizer bem': o trabalho psicanalítico resultante adverte o Sujeito ($) de que o seu bem dizer é essencialmente 'não-todo', e, pois, aberto à dialogia com o Outro (Ⱥ).

(Montaigne bem dissera: 'Uma palavra pertence metade a quem diz e metade a quem ouve'.)

No segundo caso, trata-se do trabalho psicanalítico segundo o qual deve-se preservar um determinado mirante interpretativo capaz de ler – e transformar – os rumos quase sempre mortíferos tomados pelo Campo Discursivo (subjetividades, sociedades e culturas), sobretudo aqueles oriundos da cópula entre o Capital e a Ciência (Tecnociência).

(Lacan bem dissera: 'Todo discurso que se aparente ao Capitalismo [e também à Ciência] deixa de lado o que chamaremos simplesmente de as coisas do amor'.)

Entretanto, os psicanalistas atuais invertem perversamente a ética basilar freud-lacaniana posto que, preocupados em acomodar o dispositivo psicanalítico aos imperativos de gozo do Capital e da Ciência (Tecnociência), passam a ler a Psicanálise pela Civilização, bendizendo ato contínuo tais imperativos...

Capturada por essa leitura perversa, a clínica estrutural (freud-lacaniana) é substituída sem mais pela 'clínica empírica', vale dizer, o Inconsciente estruturado como uma linguagem é trocado pelo 'inconsciente líquido', o conceito de Pai-real (operador do impossível) é deletado em prol da 'feminização de tudo e todos', o Outro como depositário da verdade do Sujeito ($) é retirado de cena e em seu lugar adentra a 'inexistência do Outro', a Castração é considerada sem efeitos e eis que emerge a 'negação da diferença sexual e geracional', a Lei (Interdição do Incesto) é neutralizada em prol dos 'comitês de ética normalizadores', a renúncia à satisfação da pulsão transforma-se em 'direito ao gozo', o Sujeito ($) como resposta do real (portanto, do impossível) é dispensado e erige-se alegremente o 'sujeito desbussolado', o Discurso-Psicanalítico transmuda-se em 'Discurso Hipermoderno da Civilização' (sic), etc.

Além disso, pululam no mundo – e o Brasil é tristemente exemplar nisso – 'psicanalistas', 'escolas' e 'associações' que sem o menor constrangimento subsumem a Psicanálise àquilo que Lacan chamou de 'mercado do saber', vendendo-a para as universidades e para a mídia em geral...

Inacreditável o que se faz hoje em dia em nome da Psicanálise!

Porém, aos 116 anos do nascimento de Lacan, insistamos psicanalítico-politicamente em ler a Civilização pela Psicanálise, bem dizendo ser impossível dizer bem o gozo que brota dessa leitura.

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LACAN E O MAL-ENTENDIDO DE MILLER

JOSÉ MARCUS DE CASTRO MATTOS (*)

A 'orientação lacaniana' é um desvio teórico, clínico, metodológico e ético face ao Ensino de Lacan (1951  1981) (Nota 01).

01) Um Desvio Teórico

A 'orientação lacaniana' atribui a JACQUES LACAN (1901 – 1981) algo que não está nele, ou seja, não há no psicanalista francês uma 'primeira clínica' (dita clínica do simbólico) à qual se sucederia uma 'segunda clínica' (dita clínica do real) – tais clínicas corresponderiam, respectivamente, aos posicionamentos teóricos de um 'primeiro Lacan' e de um 'último/ultimíssimo Lacan' (N. 02) –.

O ensinamento lacaniano não é pautado por uma evolução nem conceitual, nem lógica nem metodológica, mas sim pela demarcação de dois campos complementares, quais sejam, aqueles constituídos pela Lógica do Significante (Lógica da Castração) e pela Topologia Nodal (Nó Borromeano e Nó do Sinthoma) (N. 03).

Importante: – A Topologia Nodal não exclui a Lógica do Significante; pelo contrário, a inclui, subsumindo-a e/ou englobando-a no quadripartito Real (R), Simbólico (S), Imaginário (I) e Sinthoma (Σ) (N. 04).

Tal desvio teórico não percebe no texto de Lacan a existência de uma matriz-lógica – a saber, o significante é a causa do gozo – desde a qual é possível deduzir e articular os demais componentes da clínica psicanalítica, inserindo-os, conclusivamente, no campo da Topologia Nodal (N. 05).

E pior: – O propalador da 'orientação lacaniana' – o unicista francês JACQUES-ALAIN MILLER (*1944) (N. 06) – perverte de maneira escandalosa esta matriz-lógica, invertendo-a nos termos 'o gozo é a origem do significante, aquilo que motiva a própria repetição do significante' (N. 07).

Neste contexto, os posicionamentos teóricos de Lacan e Miller são diametralmente opostos, posto que:

a) Lacan: – 'O significante é a causa do gozo', e, pois, 'aquilo que motiva a própria repetição (enquanto falha) do gozo'.

b) Miller: – 'O gozo é a causa do significante', e, pois, 'aquilo que motiva a própria repetição (enquanto falha) do significante'.

Ora, Lacan extrai a noção de gozo (jouissance/jouis-sens) a partir do conceito freudiano de repetição (a rigor, compulsão à repetição: Wiederholungszwang), ambos subsumidos à inscrição do par significante 'S¹  S²' desde o qual são deduzidos Sujeito ($) e Objeto causa de desejo (Objeto a) (N. 08).

Deste arcabouço teórico Lacan delimita dois campos – discursivos, evidentemente – que nos permitem ler com rigor a estruturação e a articulação concernentes ao dispositivo psicanalítico, quais sejam, o Campo do Sujeito ($) e o Campo do Outro (Ⱥ).

De sua parte, aturdida e contraditoriamente Miller obtém a noção de gozo enquanto causa e/ou origem do significante a partir da repetição do próprio significante, na medida em que – Lacan demonstrou-o à exaustão – não é possível haver gozo senão pela repetição da falha advinda da incidência do par significante 'S¹  S²'.

Noutros termos, o gozo não pode ser causa e/ou origem daquilo que possui primazia lógico-estrutural sobre ele (o significante, a repetição, etc), a não ser que Miller pretenda 'naturalizar' o gozo, predicando-o como um dado corpóreo-biológico pré-existente à Linguagem e/ou ao Discurso  mas em tal caso abriríamos mão de SIGMUND FREUD (1856  1939) e Lacan e nos situaríamos fora do campo psicanalítico...

Logo, Miller estabelece uma causalidade absolutamente imprópria entre gozo e significante, invertendo uma determinada ordem de razões e atribuindo seu ato a Lacan, a saber, àquele que trabalhou longa e incansavelmente para erigir tal ordem de razões de sorte que a Psicanálise pudesse obter cidadania epistêmico-clínica e não submergir, pois, nas ideologias.    

Com efeito, ao perder e/ou perverter a leitura da emergência da matriz-lógica estruturante do ensinamento de Lacan, pois bem, a 'orientação lacaniana' – na contramão de seu propósito explícito – mergulha na desorientação e no desvio teóricos, cegamente confluindo para uma 'clínica pragmática e/ou empírica' que já expeliu de si a exterritorialidade constitutiva da Psicanálise, acomodando-se/adaptando-se ao Outro sob a rubrica 'Psicanálise do Século XXI' (N. 09).

02) Um Desvio Clínico

A 'orientação lacaniana' cria uma dualidade inteiramente artificial, a saber, aquela segundo a qual a 'clínica estrutural' teria sido substituída pela 'clínica pragmática e/ou empírica' e que, pois, Lacan – 'atento à contemporaneidade' (sic) – teria evoluído de uma 'leitura simbólico/imaginária' do dispositivo psicanalítico para uma 'escuta sem ponto de basta', demarcando assim, paradoxalmente, uma 'clínica do real' (N. 10).

Observe-se que a suposta ultrapassagem da clínica do simbólico (estrutural) para a clínica do real (pragmática e/ou empírica) obedece pari passu às transformações ocorridas no Campo do Outro, de modo que à 'globalização' corresponderia o 'abandono do significante Nome-do-Pai', abandono este que instituiria o 'sujeito desbussolado da hipermodernidade' (sic) (N. 11).

Entretanto, como tenho procurado alertar em minhas intervenções, a dessimbolização do Campo Discursivo (subjetividades, sociedades e culturas) realizada pela cópula entre o Capital e a Ciência (Tecnociência) resulta em direta e imediata imaginarização deste mesmo Campo Discursivo  imaginarização esta que, por razões amplamente expostas por Lacan, não pode sob nenhuma hipótese instituir (fundar e/ou inaugurar) nem novas subjetividades ('sujeitos prêt-à-porter'), nem novas sociedades ('sociedades globalizadas') e nem novas culturas ('culturas no frontiers'.

Contudo, nada parece deter o desvio de Miller pois o unicista francês lê o fenômeno da dessimbolização/imaginarização (ocorrência tipicamente capitalista-tecnocientífica) a título de processo instituinte de um novo Campo Discursivo (novas subjetividades, sociedades e culturas) e promovedor de  pasmem!  uma 'Psicanálise do Século XXI', a qual, se existisse e operasse efetivamente enquanto dispositivo psicanalítico, estaria ela mesma subsumida à dessimbolização/imaginarização e se conformaria não como clínica do real (mote up to date dos unicistas millerianos) mas sim como clínica do imaginário (N. 12).

Em resumo, a clínica na qual creem estar alocados os psicanalistas adscritos à bandeira 'École Une' sofre de um vício de origem, vale dizer, a) ela assenta-se na falsa divisão entre clínica estrutural e clínica pragmática e/ou empírica (pior: na falsa superação da primeira pela segunda) e b) ela mergulha ab ovo – cega e loucamente – no equívoco de supor que a dessimbolização/imaginarização promovida pela copulação entre o Discurso-Capitalista e o Discurso-Científico (rebaixado a Tecnociência e instrumentalizado enquanto hightec) institui um Campo Discursivo (subjetividades, sociedades e culturas) até então inédito e face ao qual a Psicanálise não apresentaria exterritorialidade alguma (N. 13).

03) Um Desvio Metodológico

O método de leitura (ou desleitura, como preferem alguns) de Miller consiste em fazer 'retroagir as perspectivas que Lacan abre ao final de seu ensino sobre o início de seu ensino', e que, pois, se no início 'o semblante domina o real', no final nos depararemos com o exato oposto, qual seja, 'o real domina o semblante' (N. 14).

Todavia, segundo ainda a metodologia milleriana pautada pela retroação, 'início' e 'final' devem ser considerados apenas como pontuações didático-expositivas de um processo desde sempre desconstrutivo, na medida em que Lacan – caso concedamos razão a Miller – valeu-se ininterruptamente da assertiva 'o real é sem lei' para solapar ele mesmo, a cada instante, o que supunha extrair de Freud e lançar como ensinamento aos psicanalistas... (N. 15)

Ora, de imediato deparamo-nos com pelo menos três graves problemas neste posicionamento metodológico de Miller, quais sejam:

A) A suposição teórica e clinicamente insustentável segundo a qual haveria 'perspectivas iniciais e finais' no ensinamento lacaniano, a saber, uma 'primeira clínica' (dita clínica do simbólico) que teria sido, por evolução conceitual e lógica atinente às transformações sócio-históricas ocorridas no Campo do Outro, ultrapassada por uma 'segunda clínica' (dita clínica do real) (N. 16).

B) A confusão intrínseca à própria metodologia proposta por Miller, visto que não é possível fazer retroagir nem lógica nem conceitualmente um 'ponto de chegada' sobre um 'ponto de partida' de sorte a entronizar o primeiro a título de marcador e/ou operador de leitura desconstrutiva do segundo – noutros termos: o conceito 'o real é sem lei' pressupõe (portanto, depende de) uma construção pari passu e rigorosa dos elementos desde os quais (e apenas desde os quais) tal conceitualização é finalmente obtida, confirmando-se assim, por retroação lógico-estrutural, a validade (e não a 'depreciação/desvalorização', como deseja Miller) de tais elementos (no caso, o mapeamento da Lógica do Significante [Lógica da Castração] e da Topologia Nodal [Nó Borromeano e Nó do Sinthoma] realizado por Lacan) –.

C) O equívoco crasso de supor que haveria, no 'primeiro Lacan', um 'domínio' do semblante (das configurações discursivas) sobre o real, ou, ao contrário, no 'último/ultimíssimo Lacan' (sic), um 'domínio do real sobre o semblante'; ora, Lacan – por ele mesmo – nos ensinou a ler na Lógica do Significante (Lógica da Castração) a primazia e não o 'domínio' do significante sobre o significado (escritura matêmica: S/s), e, na Topologia Nodal (Nó Borromeano e Nó do Sinthoma) o sobrepor-se e não o 'domínio' do real sobre o simbólico, nos seguintes e claríssimos termos:

→ É preciso que o real se sobreponha ao simbólico para que o Nó Borromeano seja realizado. É muito precisamente o de que se trata na análise: fazer com que o real – não a realidade, no sentido freudiano – se sobreponha ao simbólico. Que fique claro, no entanto, que isto que eu enuncio aqui sob esta fórmula nada tem a ver com um sobrepor-se no sentido imaginário de que o real devesse dominar o simbólico (N. 17). ←

Isto posto, a metodologia retroativa-desconstrutiva manipulada por Miller no âmbito da 'orientação lacaniana' em verdade retroage desconstrutivamente sobre si mesma, refém a todo momento de uma desorientação lógica e conceitual que deve ser creditada ao próprio Miller e jamais a Lacan (N. 18).

Com efeito, se as coisas do ensinamento lacaniano forem recolocadas em seus devidos lugares, a 'orientação lacaniana' é de fato e de direito uma desorientação milleriana...

04) Um Desvio Ético

Freud e Lacan nos mostraram que a sustentabilidade epistêmica e clínica da Psicanálise consiste em sua exterritorialidade, a qual funda um posicionamento ético que deve ser ocupado e obedecido por aqueles que militam no dispositivo psicanalítico, a saber, tratar-se-á impreterivelmente de ler a Civilização pela Psicanálise e não o contrário (N. 19).

(Aliás, a exterritorialidade é a conditio sine qua non dos saberes cuja dignidade consiste em serem capazes de, a partir de seus próprios fundamentos teóricos, ler o mundo circundante, pontuando sobretudo um avessamento inegociável com o Outro [a Alteridade]: por exemplo [apenas alguns dentre muitos], Platão diante da Sofística, Spinoza face ao Judaísmo, Kant vis-à-vis à Razão, Marx versus a Economia, Wittgenstein no front da Filosofia, Freud na contramão da Psicologia, etc.)

Não obstante, a 'orientação lacaniana' faz vistas grossas para a exterritorialidade da Psicanálise e a lê pela Civilização, como se os conceitos árdua, longa e rigorosamente demarcados por Freud/Lacan fossem pontualmente caudatários de 'nossa época', restando imiscuídos em uma meridiana e inultrapassável contemporaneidade; assim, segundo Miller, o Discurso-Psicanalítico é homólogo ao 'Discurso Hipermoderno da Civilização' (sic), a substituição foucaultiana da Lei pela(s) norma(s) é imediatamente lida como 'inexistência do Outro', a 'clínica pragmática' possui íntima familiaridade com o pragmatismo de RICHARD RORTY (1931 – 2007), o 'inconsciente líquido' é egresso da liquefação de tudo e todos diagnosticada por SYGMUNT BAUMAN (*1925), o 'sujeito precarizado/desbussolado' é filho bastardo da 'globalização', etc (N. 20).

Ora, desvencilhando-se abruptamente da exterritorialidade psicanalítica, a 'orientação lacaniana' se furta à possibilidade de conquistar ela mesma um mirante ético – em última instância, teórico, clínico e político – capaz como tal de ler corretamente o 'mal-estar na Civilização' (das Unbehagen in der Kultur, nos termos de Freud), sendo pois capturada e instrumentalizada pelos dispositivos capitalistas-tecnocientíficos os quais buscam neutralizar a práxis instituinte do Campo Discursivo – conforme Lacan: tratar o real pelo simbólico – e substituí-la pela dessimbolização/imaginarização encapsulada no imperativo Anything Goes and No Frontiers (N. 21).

Assim, o desvio ético que consiste em ler a Psicanálise pela Civilização produz um curto-circuito na exterritorialidade essencial à sobrevivência do dispositivo psicanalítico e depõe seu corpus doutrinário, sua clínica e sua política aos pés da cópula entre o Capital e a Ciência (Tecnociência), desarmando/des-amando (o jogo semântico é bem este) Freud e Lacan e entregando-os de mãos amarradas e ouvidos dóceis ao perverso desmentido segundo o qual o real não é impossível (N. 22).

Sejamos portanto consequentes:

♦ Os desvios expostos acima testemunham que a 'orientação lacaniana' não é uma 'desleitura' (sic) advinda de um projeto consciente de Miller com o intuito de direcionar o ensinamento lacaniano para fins doutrinários e institucionais específicos (tese paranoica de alguns comentadores), mas sim um abissal mal-entendido resultante da transferência não-analisada de Miller para com Lacan, autorizando-nos a lê-la, psicanaliticamente, como um gritante desmentido: a orientabilidade atribuída a Lacan – logo, a inscrição de um Sujeito-suposto-Saber – contradita e tampona a desorientação transferencial subjacente a essa mesma imputação, tudo se passando como se o velho e bom psicanalista francês fosse o pai da criança milleriana...

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(Nota 01) 'Orientação lacaniana' (orientation lacanienne, no original francês) é a nominação dada por Miller à série de seminários coordenada por ele a partir de 1981 no âmbito do Departamento de Psicanálise da Universidade de Paris-VIII (Saint-Denis), série esta encapsulada no lema 'École Une', vale dizer, as escolas pertencentes à Associação Mundial de Psicanálise (AMP) valem-se necessariamente dos textos saídos do ensino milleriano como base para a formação de psicanalistas, garantindo-se assim a unidade/unicidade/uniformidade entre as escolas e seus membros.

(N. 02) As expressões 'primeira clínica/segunda clínica, primeiro Lacan/segundo Lacan, clínica do simbólico/clínica do real e último/ultimíssimo Lacan' indicam o aturdimento da 'orientação lacaniana' face ao Ensino de Lacan (1951 – 1981): naufragada em um delirante evolucionismo teórico-clínico que nada tem a ver com a transmissão realizada pelo psicanalista francês, ela desliza ad infinitum em seus próprios desvios, denunciando no esgar de seus olhos o estupor de um peixe diante de uma maçã...

(N. 03) Cf. MATTOS, J. M. de C. "Uma apresentação do seminário Encore (1972 – 1973)", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é:


(N. 04) Cf. MATTOS, J. M. de C. "O mapa de Lacan", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é:


(N. 05) Cf. MATTOS, J. M. de C. "A matriz-lógica do ensino de Lacan", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é:


(N. 06) Cognomino Miller de 'unicista', pois afinal os seminários coordenados por ele constituem, por si mesmos, a 'École Une' – palavra de ordem à qual estão obrigatoriamente subsumidas as escolas pertencentes à Associação Mundial de Psicanálise (AMP) –.

(N. 07) MILLER, J-A. "Sobre o caráter primário e real do gozo", in: Silet (os paradoxos da pulsão, de Freud a Lacan). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2005: 124 – 125.

(N. 08) Cf. LACAN, J. O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise (1964). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. Segunda Edição: 1998.

Quanto à escansão 'jouissance/jouis-sens', certificar-se: MATTOS, J. M. de C. "Uma leitura de 'la jouis-sens', de Lacan", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é:


(N. 09) Cf. MATTOS, J. M. de C. "A extraterritorialidade de Lacan", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é:


(N. 10) Cf. MATTOS, J. M. de C. "Erros de Miller", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é:


(N. 11) Cf. MATTOS, J. M. de C. "Forbes: o mau uso da psicanálise", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é:

http://www.retornalacan.blogspot.com.br/2015/12/forbes-o-mau-uso-da-psicanalise.html

(N. 12) Cf. MATTOS, J. M. de C. "Forbes: uma clínica do imaginário", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é:


(N. 13) Cf. MATTOS, J. M. de C. "Desordem no imaginário e não no real", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é:


(N. 14) MILLER, J-A. A experiência do real no tratamento analítico. Lições do seminário da 'orientação lacaniana' realizadas entre 18 de Novembro de 1998 e 18 de Junho de 1999. Citação colhida na lição de 25 de Novembro de 1998. Inédito.

(N. 15) Cf. MILLER, J-A. "O real é sem lei", in: Opção lacaniana. Nº 34, 2002.

(N. 16) Cf. MATTOS, J. M. de C. "O método selvagem de Miller", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é:


(N. 17) LACAN, J. "Sessão de 14 de Janeiro de 1975", in: Seminário R. S. I. (1974 – 1975). Inédito.

(N. 18) Cito SÉRGIO DE MATTOS (Diretor-Geral da Escola Brasileira de Psicanálise [EBP-MG], ano 2001):

→ (...) J-A. Miller nomeou um campo de desorientação. Toda a questão aí é aprender a se orientar no que Lacan trouxe como desorientação. (MATTOS, S. "Apresentação", in: Lacan e a lei. Curinga Nº 17. EBP-MG, Novembro de 2001: 07. ←

(N. 19) Cf. MATTOS, J. M. de C. "A extraterritorialidade de Lacan", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é:


(N. 20) Quanto ao "Discurso Hipermoderno da Civilização" (sic), certificar-se: MILLER, J-A. "Uma fantasia", in: Opção lacaniana. Nº 42. São Paulo: Eólia, Fevereiro de 2005: 07 – 18.

(N. 21) Cf. DUFOUR, D-R. A arte de reduzir as cabeças: sobre a nova servidão na sociedade ultraliberal. Rio de Janeiro: Editora Companhia de Freud, 2005.

(N. 22) Cf. MATTOS, J. M. de C. "O resgate do conceito de real em Lacan", in: Retorno a Lacan, texto cujo link é: